Eu danço. Faz tempo: quando entrei em uma sala de aula de dança pela primeira vez, eu tinha 16 anos. Nunca mais parei. Aprendi dança de salão – salsa, bolero, forró, samba, west coast swing, zouk. Fui bolsista em escola de dança. Já subi no palco várias vezes. Mais recentemente, comecei a me aventurar pelo stiletto e pelas danças urbanas. Às vezes paro, por causa das exigências da rotina, mas sempre volto. Adoro. Não consigo ficar sem.

dança

Quando eu conto isso para as pessoas, é comum ouvir: “Nossa! Dez anos! Você deve dançar muito bem, né?”. Ou então, em tom de brincadeira: “Ah, eu não vou dançar na sua frente, que é especialista. Tenho vergonha!” E, bom… Não. Não sou especialista. Nem acho que dance assim tão bem. Claro, eu não sou uma pata: sei os passos. Tenho bastante noção de ritmo. Se me tirarem para dançar em uma festa, eu não vou fazer feio. E me sinto bem à vontade dançando. (L) Mas, por mais que eu tenha facilidade, existe alguma coisa que eu não tenho. Não sei se é um balanço. Uma desenvoltura. Um jeito de posicionar os braços, de ser leve com os pés. Não sei. É algo mais imaterial. Algo que eu chamaria de talento natural – é aquilo que me faz pensar, quando vejo algumas outras pessoas dançando (inclusive algumas que dançam há muito menos tempo que eu!): “Essa/essa nasceu pra isso.” Eu não nasci dançando. Aprendi. Minha cabeça quis, e meu corpo pegou o jeito na teimosia.

Eu sei que há estudos que comprovam que o treinamento, o treinamento dedicado mesmo, faz quase milagres – e que eu provavelmente dançaria ainda melhor se praticasse cinco, seis, sete horas por dia. Convenhamos: até a Madonna tem horas diárias de ensaio. Eu dançava melhor na época em que tinha mais tempo livre e fazia mais horas de aula por semana. E, se você me disser que quer ser bom – ou melhor – em algo, eu vou dar todo o apoio para que você insista, tente, erre e quebre a cara quantas vezes precisar até se superar. Mas veja bem: eu falei quase milagres. Eu falei se superar – não superar a Beyoncé. Eu acredito de verdade que o tal talento existe – algo físico, mental ou, que seja, sobrenatural que faz algumas pessoas terem mais habilidade para fazer certas coisas. Um dom. Algo que me diz que eu posso tentar, de verdade, mas nunca vou desenhar bem o suficiente para ganhar a vida com isso. Ou, sei lá, jogar vôlei bem o suficiente para entrar na Seleção.

grupo de dança

Parece pouco mágico, eu sei. Pouco Disney. “Anyone can cook”, diz o chef Gusteau, em Ratatouille – mas eu não sei se é bem assim. Eu posso cozinhar, mas nunca vou cozinhar tão bem quanto a minha irmã – que desde criancinha, e muito antes de qualquer curso de gastronomia, já improvisava um almoço maravilhoso como ninguém. E, ao contrário de muita gente, que pode achar essa noção meio frustrante, eu vejo nesse fato uma motivação. Uma libertação, na verdade: eu não preciso ser uma dançarina perfeita para gostar de dança. Para me divertir dançando. Para ter o meu dia melhorado com uma simples aula. Não preciso me cobrar tanto. Eu me esforço porque quero me superar, não porque quero virar bailarina do Bolshoi. E é isso, eu acho, que faz da dança um hobby na minha vida – e não outra fonte de preocupação ou cobranças.

gif ratatouille

Você pode jogar futebol sem ser o Messi. Pode tocar guitarra sem a habilidade do Steve Vai. Pode se divertir no surfe mesmo se souber que não vai ser o próximo Gabriel Medina. Pode fazer aulas de pintura e gostar do resultado, mesmo sem expor suas obras no MoMA. Se você tem vontade – e um pouquinho de tempo para se dedicar -, é só se jogar: e ficar maravilhado com como é legal ver a própria evolução e competir apenas consigo mesmo. A vida, afinal, é curta demais para ser só trabalho – e um pouco de diversão despretensiosa não faz mal a ninguém. 😉