Por GaúchaZH

Nova York – Ele chegou à cena pop da década de 1970 com a sutileza de uma explosão, sendo considerado a cara mundialmente conhecida do punk rock, assim como sua identidade.

John Lydon – então conhecido como Johnny Rotten, vocalista da banda britânica The Sex Pistols – não apenas defendeu a anarquia, mas a personificava, girando no palco como uma marionete quebrada, gritando contra os pilares da sociedade educada, enquanto uma tempestade de cuspes chovia da plateia.

No seu apogeu, os Sex Pistols inspiraram especialistas nos jornais de televisão a ponderar, com toda a seriedade, se o declínio da civilização ocidental tinha finalmente chegado.

Lydon aparentemente amadureceu com a idade, pelo menos para seus padrões.

Em uma quarta-feira chuvosa, uma das figuras mais polarizadoras da história do rock estava na loja matriz de Issey Miyake em Tribeca, um espaço abafado, parecido com uma galeria que exibe roupas avant-garde desenvolvidas pelo designer japonês homônimo.

“Vai além da roupa. É realmente arquitetura”, disse Lydon, admirando um macacão amarelo plissado com curvas ondulantes que pareciam ter sido emprestados de Frank Gehry.

No fim das contas, o homem que uma vez fez apologia à “anarquia no Reino Unido” é um cara das tendências.

Como Johnny Rotten, o jovem Lydon tinha um talento especial para o design. Ele fazia cabeças virarem em Londres usando uma camiseta que fez, onde estava escrito: “Eu odeio Pink Floyd”. Mais tarde, foi Johnny Rotten que levou a tesoura para seu amigo Sid Vicious fazer o corte de cabelo à lá Bowie, transformando-o em uma coroa de espinhos pretos.

E apesar do crédito para o estilo dos Sex Pistols ter sido muitas vezes atribuído ao extravagante empresário da banda, Malcolm McLaren, e sua musa da moda Vivienne Westwood, foi Johnny Rotten que inventou seus próprios conjuntos. Enquanto experimentava uma boina azul, Lydon disse:

“Esta foi a primeira lição que eu aprendi na música: não confie nos adultos. Eles vão roubar tudo de você”, disse ele.

Uma chuva torrencial caía na fachada da loja. Lydon estava usando um conjunto divertido que parecia um contraponto adequado às confecções esculturais de Miyake: tênis Valentino, uma camisa grande e amarela da Burberry que ele transformou em um poncho e calças já velhas da Miyake, cujas pregas davam tanto estilo quanto conforto.

Com o seu retorno aos palcos, a circunferência de Lydon tornou-se objeto de interesse dos tablóides. “John Lydon, 62 anos, está quase irreconhecível”, lia-se em uma manchete recente no Daily Express em Londres. O Daily Mail disse que ele “parece outra pessoa em comparação àquele magricela no auge do punk”.

Lydon, por sua parte, não vai começar a se importar agora com o que as pessoas pensam. “Às vezes eu incho porque tenho um problema na tireoide. É muito bom quando você consegue usar uma calça depois que emagrece de novo”, afirmou.

Isso não é para sugerir que Lydon ficou fofo. Com um moicano loiro na cabeça, está parecido com Tintin depois de 10 anos de prisão. Lydon berrou a um vendedor: “Desce para mim as roupas básicas nos maiores tamanhos masculinos que um gorducho possa usar”.

Voltando a atenção mais uma vez para o macacão ondulado, ele disse: “Com o que eu pareceria dentro dessa roupa? Com uma mulher grávida?” Quando o vendedor lhe assegurou que a peça era unisex, ele acrescentou: “Não há nada de errado com unisex. Eu fui para a universidade, sei tudo sobre isso”.

Depois de fazer compras por cerca de meia hora, Lydon estava pronto para uma bebida e um cigarro. Junto com seu gerente de voz grave, John Rambo Stevens, entrou em sua SUV preta e dirigiu-se para Hudson Bar and Books, bar no West Village onde ainda é permitido fumar.

“Nós vamos fumar um cigarrinho. Somos a brigada de baixa renda”, disse Lydon de forma maliciosa, quando o carro parou.

A conversa mudou de rumo e o novo assunto foi o novo documentário, “The Public Image Is Rotten”, sobre sua banda pós-Sex Pistols, Public Image Ltd, ou PiL, que estreou nos cinemas em setembro. A banda também está embarcando em uma turnê por 19 cidades da América do Norte a partir de 09 de outubro.

Mesmo com 40 anos de estrada e apresentações ao vivo, Lydon confessou que ainda sofre crises de ansiedade antes de cada show. “São terríveis os pensamentos de que vou fazer papel de idiota ou decepcionar as pessoas. É uma autotortura”, disse ele.

Apesar de ser mais conhecido pelos Sex Pistols, a banda lançou apenas um álbum de estúdio e durou um pouco mais de dois anos. PiL, por outro lado, sobreviveu (em várias encarnações) tempo suficiente para gravar 10 álbuns e influenciou uma geração de estrelas do rock, incluindo Thurston Moore do Sonic Youth, Flea do Red Hot Chili Peppers e Adam Horovitz dos Beastie Boys, que dão testemunhos brilhantes no filme.

A banda tem produzido canções próprias, incluindo “Rise” e “This Is Not a Love Song”.

Mesmo assim, nunca foi fácil viver sob o legado dos Sex Pistols. Nos primeiros dias do PiL, fãs e críticos resistiram à nova direção musical mais aventureira de Lydon.

Em shows, “das filas 1 a 30 você via imitações de Johnny Rotten. Eu pensei, ‘não está dando certo’. Eu não estava fazendo isso para criar um novo uniforme – que não estava nem perto de ser tão bom quanto o que os nazistas tinham”.

Ciente de que a conversa estava sendo gravada, ele rapidamente acrescentou com um piscar de olhos: “‘John disse com o máximo possível de humor'”.

E continuou: “É aí que eu e o punk nos separamos. O punk queria manter um clichê e uniformidade que o movimento não merecia. E eu queria fazer coisas novas e diferentes, o que, na minha opinião, é o que o punk é em sua essência – faça sozinho, o que significa ser verdadeiro consigo mesmo”.

Na verdade, 40 anos depois que os Sex Pistols acabaram, depois de uma turnê caótica nos Estados Unidos, Lydon acha incrível que as bandas atuais ainda usem cabelos espetados, tentando manter 1978 vivo.

“Dá vergonha, na verdade. Quantas bandas estão aí como o Green Day agora? Eu olho para elas e só tenho vontade de rir. São cabides, sabe. Uma versão de algo que na verdade não lhes pertence”.

Enquanto colocava suas críticas, Lydon parecia tudo, menos perto de se aposentar. No entanto, como um homem em seus 60 anos, também soava pensativo e reflexivo enquanto discutia os limites da revolução, na música e outras arenas.

O punk, ele disse, tornou-se uma “caricatura”, o rap um “cenário perfeito para vender um par de tênis”. E então, claro, existe a política.

Nos últimos anos, Lydon tem sugerido que a presidência de Donald Trump é a política dos Sex Pistols. Mas, como um cidadão americano (ele vive em Los Angeles), disse que votou no candidato “cujo nome rima com ‘Hilarity'”, apesar de sua falta de entusiasmo com sua candidatura.

“O que os EUA fizeram foi votar em um empresário para substituir os políticos”, ele disse no meio de uma nuvem de fumaça. “O negócio é a alternativa? Já disse, abertamente, que acho que não. Essa é a corrupção extrema, mas é o quão desesperado o país se tornou.”

O homem que uma vez cantou “God save the queen, the fascist regime” faz um trabalho tão convincente personificando um adulto atualmente, que alguns de seu país natal sugeriram um título de cavaleiro para ele, assim como seus colegas britânicos do rock Mick Jagger, Paul McCartney e Elton John.

Quando mencionei isso, seus olhos se arregalaram em horror. “Você acha que algum dia eu deixaria a rainha segurar uma espada sobre minha cabeça?”

Por Alex Williams