Com a declaração de falência da lendária fabricante Gibson, muito foi dito a respeito da suposta queda de popularidade do instrumento – mas as coisas podem não ser bem assim

No começo deste mês, a Gibson, lendária fabricante de guitarras, declarou falência – o que fez diversos sites de notícias publicarem matérias em que especulavam a respeito da suposta morte de um dos instrumentos musicais mais icônicos: será que os problemas financeiros da Gibson estão relacionados ao aumento da popularidade de estilos musicais como o pop e o eletrônico, que quase sempre dispensam o uso da guitarra? Nesta semana, a revista Rolling Stone norte-americana publicou uma investigação interessante a respeito – que parece apontar justamente o contrário.

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Segundo a publicação, as vendas de guitarras estão, em muitos mercados, até mesmo aumentando: uma pesquisa da IBISWorld, focada na fabricação do instrumento nos Estados Unidos, mostra que, na verdade, as vendas de guitarras vêm crescendo nos últimos cinco anos – e a projeção é de que continuem a aumentar, pelo menos até 2022. A falência da Gibson, segundo a reportagem, não seria um reflexo da situação do mercado como um todo, e sim de erros internos da companhia – erros que são admitidos pela própria empresa. Desde 2014, a Gibson vinha investindo na área de aparelhos de áudio e eletrônicos domésticos. “A ideia era construir um negócio que fosse além das guitarras, englobando todo o lifestyle relacionado à música, como a Nike fez com os esportes, por exemplo”, explicou Henry Juszkiewicz, CEO da Gibson, em entrevista à revista. “Nós tentamos fazer isso com a aquisição de uma subsidiária da Phillips, mas não funcionou muito bem.” O objetivo agora é reestruturar a companhia para “concentrar 100% dos seus esforços nos instrumentos musicais”, sem distrações.

Entre janeiro de 2017 e janeiro de 2018, as vendas de guitarras elétricas da própria Gibson (que vende cerca de 170 unidades por ano em 80 países) chegaram a aumentar 10% – e, nos últimos anos, as vendas de violões também aumentaram enormemente, graças à renovada popularidade do country e a Taylor Swift, que fez o instrumento voltar a ser cool também entre os jovens. Somados, 2,6 milhões de guitarras e violões foram vendidos nos Estados Unidos no ano passado; 300 mil unidades a mais que em 2009, por exemplo, segundo a National Association of Music Merchants. “Há um crescimento bastante saudável no mercado de guitarras”, afirmou Andy Mooney, CEO da Fender, à Rolling Stone. “Da nossa perspectiva, a indústria nunca esteve em melhor forma. As pessoas estão focando muito na situação da Gibson, que não tem nada a ver com as guitarras em si.” Mooney observa que parte da percepção das pessoas de que este mercado está morrendo vem do fato de que as grandes lojas físicas de instrumentos musicais estão fechando, um fenômeno observado também com livrarias e lojas de roupas: a Fender estima que cerca de 50% de seus produtos sejam, hoje, comprados pela internet.

Isso não significa, é claro, que a indústria não esteja repensando várias de suas práticas: tradicionalmente, as fabricantes de guitarras sempre pensaram seus produtos e sua publicidade com foco em homens, geralmente brancos e jovens. Mas esse público vem se ampliando cada vez mais, o que finalmente fez as fabricantes se perguntarem: quem eles estiveram ignorando durante todo esse tempo? Fabi Reyna, fundadora da She Shreds, uma revista voltada para mulheres guitarristas, contou à Rolling Stone que, no início, há cinco anos, poucas pessoas deram à publicação a devida importância. “Mas, há cerca de um ano, as marcas começaram a perceber o que estava acontecendo”, ela explica. “A Fender e a Reverb começaram a dialogar comigo.” Em uma pesquisa feita na América do Norte há três anos, a Fender descobriu que cerca de 50% dos novos guitarristas, hoje, são mulheres – foi quando a companhia começou a buscar parcerias com artistas mulheres e a fazer campanhas publicitárias voltadas para o público feminino. Novas linhas de instrumentos também foram lançadas, com diversas possibilidades de customização, o que vai ao encontro do interesse do público mais jovem.

Claro, o contrário também é válido: a Gibson não tem medo de investir na nostalgia, oferecendo guitarras que são praticamente réplicas daquelas usadas por gente como Jimi Hendrix, Slash e Jimmy Page, e até mesmo desenvolvendo um processo que acelera o envelhecimento da madeira usado na fabricação dos instrumentos, dando às guitarras uma aparência e uma sonoridade mais maduros – alguns desses instrumentos chegam a ser vendidos por US$ 500 mil. “As guitarras da Gibson são alguns dos poucos instrumentos que têm valor vintage”, afirma Juszkiewicz; adicionando que uma parte sólida do público da empresa é formada por pessoas mais velhas, que agora finalmente têm dinheiro para investir em peças mais caras, com as quais sonharam desde a juventude.

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Outra área que a Fender vê com grande interesse é a educacional: outra pesquisa da empresa descobriu que 90% das pessoas que compram sua primeira guitarra tendem a abandonar a prática em menos de um ano – já os 10% que mantêm o hobby se mostram dispostos a gastar cerca de US$ 10 mil com instrumentos, acessórios e amplificadores ao longo da vida, mesmo se não adquirirem o material para uso profissional. Com isso em mente, a fabricante inaugurou o Fender Play, programa de assinaturas que oferece lições musicais online por um custo de US$ 10 dólares por mês. O objetivo é diminuir o número de pessoas que abandonam a guitarra, o que poderia, segundo Mooney, “dobrar o tamanho da indústria.”

A indústria de guitarras enfrenta diversos desafios, é verdade – mas isso não quer dizer que o interesse do público não exista, e sim que é necessário coragem e inovação para transformar esse interesse em vendas. “[Os novos guitarristas] têm um jeito muito diferente de pensar, e tendem a não ser tradicionalistas”, explica Juszkiewicz. “Nós temos que satisfazer quem já está conosco, mas também corresponder às necessidades de toda uma nova geração. O desafio é melhorar os instrumentos continuamente, para que eles sempre possam oferecer mais.”