O veterano compositor japonês permanece na vanguarda do experimentalismo em suas criações

No início deste ano, o documentário de Ryuichi Sakamoto, “Coda”, foi lançado nos cinemas lá fora. Em pouco tempo ganhou notoriedade e consequentemente a aclamação da crítica. “Coda” foi filmado em grande parte durante o trabalho do compositor japonês no filme ‘The Revenant’ (O Regresso) – o longa de 2015 de Alejandro González Iñárritu, estrelado por Leonardo DiCaprio. O documentário capta a carreira musical de quatro décadas de Sakamoto, bem como momentos relevantes de sua vida artística – vale lembrar a incrível trilha de “O Último Imperador”, que lhe rendeu o Oscar em 1988, o encontro com David Bowie no filme “Furyo – Em Nome da Honra”, a paixão pela música brasileira, especialmente pela Bossa Nova e seu lado ativista, evidenciado em 2012, quando, um ano após o acidente da Usina Nuclear de Fukushima, o artista organizou um grande show para protestar contra a utilização de usinas nucleares.

Ryuichi Sakamoto é um músico, compositor, produtor e ator japonês. Estudou na Universidade Nacional de Tóquio de Belas Artes e Música, onde se formou bacharel em composição e tornou-se mestre com ênfase em música eletrônica e música étnica. Não tem como citar a obra de Sakamoto sem soar superlativo. O homem é um patrimônio vivo da música contemporânea. Você precisa conhecê-lo melhor, ouvir suas criações em diferentes fases e adentrar esse mundo atmosférico, misterioso e irresistivelmente moderno que ele oferece a cada ouvinte que se depara com suas criações.

 

Na música, o mais recente trabalho solo de Sakamoto, “async”, décimo sexto álbum de estúdio, foi lançado em 2017. É o primeiro disco solo do compositor japonês depois de oito anos longe dos estúdios e de uma batalha contra o câncer de garganta.

“async”, como o título sugere, só está fora de sincronia com a correria de uma vida cotidiana banal, uma vez que convida o ouvinte a relaxar ao clima de um ambiente meditativo. Nesse sentido, o trabalho está a altura de outros grandes mestres da ‘Música Ambiente’, como Philip Glass e Brian Eno. Este álbum soa como um presente instrumental, preparado na época em que enfrentava o câncer, um disco que ele fez “como se fosse o último”.

Pouco tempo depois de “async” e de vencer a doença, o artista, aos 66 anos, voltou a pensar em mais uma colaboração sob seu olhar cinematográfico. No início deste ano, ele se juntou ao músico alemão Alva Noto para realizar um álbum ao vivo improvisado, intitulado “Glass”. Baseado na gravação de uma apresentação de 2016 na icônica ‘Glass House’ de Philip Johnson, o polímata japonês e o minimalista alemão revisitam a obra e equilibram tons e texturas para uma nova releitura. A colaboração de Noto e Sakamoto na trilha sonora de “O Regresso”, de Alejandro G. Iñárritu, fez com que o clima gelado do filme parecesse ainda mais amargo, e “Glass”, bebe desta fonte e se aprofunda na abstração gélida.

Em “Glass” o som que os microfones captam criam um ambiente fantasmagórico espacial, uma impactante visão do que poderia ser, por exemplo, a trilha sonora de “2001 Uma Odisseia no Espaço” do século XXI. Quase quarenta minutos de pura magia.

Depois de décadas fazendo synth-pop inovador como membro da ‘Yellow Magic Orchestra’ e trabalhando com artistas como Brian Wilson, Iggy Pop e David Byrne em álbuns solo, Sakamoto se afastou da música pop. Mas contribuir com Noto, um dos produtores eletrônicos mais austeros de sua geração, marcou uma espécie de retorno. Sakamoto revelou que voltar a fazer música experimental o levou de volta à juventude, onde o processo criativo era puro e sensorial.

Ryuichi Sakamoto está num nível de relevância para a música dos nossos tempos equivalente a de nomes como Brian Eno. Suas criações passeiam por paisagens sonoras típicas, de um jeito atemporal, exibindo uma marca registrada de ousadia, genialidade e delicadeza.

 

 
Vídeos e fotos – divulgação.